Foto: Nathália Mendes
Arepas em solo brasileiro
Feirantes venezuelanos atravessam o Brasil com pratos típicos e memórias de sua terra natal na bagagem
Era fim da tarde e o movimento ainda não tinha tomado conta da feira do parque Vitória Régia, que fica às margens da Nações Unidas, uma das principais avenidas de Bauru. Nem todas as barracas estavam montadas à espera dos clientes naquela quarta-feira em que os termômetros marcavam 28°C. Ali, entre a família acelerada que vende um gelado suco de laranja e a barraca de terrários delicados, estava o casal venezuelano à nossa espera.
Suleidys Aurora Barcelo Diaz, de 44 anos, 1,58m de altura e pele que não entrega a idade, notou nossa presença com certa relutância. Ela tirava o papel-filme da carne de pernil, um dos recheios para as arepas que seriam preparadas mais tarde. O pão de milho feito na chapa chamado de arepa é um dos pratos típicos de sua terra natal e uma das opções da barraquinha de confeitaria Bienmesabe a Venezuela.
A feirante andava de um lado para o outro: organizou os ingredientes das arepas, conferiu o funcionamento das bocas de seu fogão improvisado, e nos mostrou a vitrine de doces feitos pelo seu marido Julio, confeiteiro desde os 14 anos. Folhado de creme de avelã e doce de leite, strudel de maçã, cannoli venezuelano, e profiterole que, para os brasileiros, são conhecidos como carolinas, estão entre as diversas opções do cardápio do casal.
Enquanto os doces eram apresentados e detalhados por Suleidys, Julio Ovidio Aguilera, de 53 anos e 1,80m de altura, nos cumprimentou com um aperto de mãos rápido. Os olhos verdes e rosto marcado pelo tempo compõem a expressão cansada, e o jeito tímido contrasta com a receptividade da esposa, já mais acostumada na conversa com os clientes em uma mistura de português e espanhol.
A feira ganhava vida e movimento quando Suleidys nos convidou para sentar. Uma mesa de alumínio coberta com papel laminado verde e banquinhos pretos estavam arrumados no lado direito da barraca. Perguntamos o que havia trazido o casal ao Brasil. A venezuelana hesitou. “Bom, eu acho que vocês não vão gostar dessa conversa porque ela, infelizmente, envolve política. Eu não estou aqui de visita, eu estou aqui porque tive que fugir do meu país”, respondeu.
Suleidys afirma que levou dez anos para que enxergasse problemas na Venezuela. “A gente nunca acreditou. Uma pasta de dente custar 5 dólares? Jamais”, diz a feirante. A crise que o país vive teve início em 2014, resultado de políticas anteriores que concentraram a economia num único eixo: a comercialização de petróleo.
A Venezuela depende da commodity desde que descobriu ter a maior reserva do planeta em seu território, na segunda década do século XX. Pela proximidade geográfica com os Estados Unidos, nação que mais consome petróleo no mundo, a base da economia venezuelana é a exportação para os norte-americanos.
Apesar da riqueza natural, o país historicamente enfrenta grandes índices de desigualdade social e pobreza. Políticas sociais implementadas pelo governo Hugo Chávez, de 2002 a 2013, foram responsáveis por diminuir a pobreza em 20%. Após esse período, a família de Suleidys tinha casa própria, três carros e um negócio estável de confeitaria na cidade petrolífera de El Tigre, no estado de Anzoátegui.
A venezuelana foi professora do ensino fundamental e se aposentou ainda no país. Na Venezuela, o ensino do 1º ao 9º ano é chamado de ‘básico’, e um professor é oresponsável por todas as disciplinas. Seu contato com a culinária começou quando ajudava no restaurante da mãe, mas ela nunca imaginou que precisaria deixar a profissão para acompanhar o marido na venda de doces e salgados. “Aí chegou o momento que tudo ficou ruim”, ela lembra.
O cenário vivido por Suleidys é complexo. A melhora que a Venezuela havia conquistado se desfez junto à queda do preço do petróleo no mercado internacional em 2014.
Antes disso, as medidas adotadas durante o segundo mandato chavista, a partir de 2007, desequilibraram a economia interna, conforme estudo do Observatorio Venezolano de Finanzas. Enquanto a exportação de petróleo crescia, o Estado venezuelano concentrou ainda mais sua economia na comercialização do produto.
Assim, a melhora que a Venezuela havia conquistado se desfez junto à queda do preço do petróleo no mercado internacional em 2014. Em apoio à oposição e contrários ao caráter assumido pelo governo de Maduro, os EUA impuseram sanções econômicas à Venezuela. A União Europeia e outros países, como o Brasil, seguiram os norte-americanos e isolaram ainda mais o país.
O boicote atingiu o patamar mais alto em 2017, durante o governo de Donald Trump, com sanções conhecidas como “políticas de pressão máxima”. Segundo o Observatorio Venezolano Antibloqueo, até 2022 foram 927 medidas, 60% direcionadas para pessoas físicas que possuíam ‘relação’ com o governo venezuelano.
A crise bate à porta
Em 2018, a hiperinflação na Venezuela afetou o empreendimento da família de Suleidys. Se antes o casal distribuía doces para 20 padarias, a crise tornou a confeitaria em um item de luxo. O aumento dos preços levou o governo a adotar uma medida de controle cambial para tentar segurar o valor da moeda local, o bolívar soberano, o que não surtiu efeito.
A política de intermediar a compra e venda de moedas estrangeiras se soma ao desabastecimento de produtos e serviços básicos crescente da Venezuela. A dependência de importar desde arroz até peças de tecnologia se acentuou com a saída de grandes empresas norte-americanas devido às sanções econômicas.
Além das dificuldades nos negócios, aquele ano foi marcado por problemas pessoais na família. Suleidys perdeu a mãe após passar dias no hospital e ver com os próprios olhos a situação que o sistema de saúde se encontrava. “Em dois dias eu vi todo o horror daquele hospital: chegava gente baleada e não podia ser atendida. Não tinha medicamento, não tinha nada” enfatiza a feirante.
De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde e relatório apresentado por 12 organizações não governamentais venezuelanas, entre 2012 e 2017, 55% dos profissionais da área médica deixaram a Venezuela em busca de melhores condições de trabalho e refúgio.
A saída de profissionais da categoria do país somada ao rombo nos recursos que eram destinados à área da saúde contribuíram para um colapso no setor. Como a arrecadação de verba e a importação de produtos dependem da venda de petróleo, não havia medicamentos, profissionais ou infraestrutura para que os hospitais continuassem com as portas abertas.
Suleidys também aponta para os gastos que vieram com a perda da mãe. “Enterrar a minha mãe foi um absurdo de caro, iria chegar a hora em que não teríamos mais dinheiro. Éramos classe média, mas ainda assim, uma hora iria acabar”, complementou. O salário que vinha de sua aposentadoria como professora do fundamental já não era o suficiente para sustentar a família.
Ela interrompe a fala. Abre o celular e busca por um recibo de pagamento que gostaria que víssemos com nossos próprios olhos: 270 bolívares soberanos era o valor enviado pelo governo venezuelano em janeiro deste ano, correspondente a sua aposentadoria. Na cotação atual, a quantia equivale a 59,40 reais.
“Eu pego esses 50, 60 reais que chegam [da aposentadoria] e compro um chinelo, tanto faz para mim. Mas e para quem está lá? Que precisa se manter com esse dinheiro, como faz?”, argumenta a aposentada. Foram 26 anos de trabalho para o Ministério da Educação, mas estabilidade e recompensa não chegaram da forma que imaginou.
O salário dos professores do setor público flutuava entre 1,8 mil e 3,5 mil bolívares soberanos em 2018. Convertendo com base no câmbio daquele ano, seria o equivalente a 107 reais — valor que era suficiente para comprar apenas um quilo de carne bovina e um quilo de queijo.
“O professor vende suco, o professor faz artesanato, o professor arruma calça. O professor faz qualquer coisa para arrumar um dinheiro extra. Mas é para isso que nós estudamos?”, questiona Suleidys. Ela ainda relembra que, além de recorrer ao subemprego, quem desejava ter seu próprio negócio precisava “molhar a mão da polícia”, que marcava forte presença nas ruas venezuelanas.
A Força de Ações Policiais (Faes) assumiu o controle da distribuição de alimentos e medicamentos para a população em 2016. Além disso, era responsável por “proteger o povo contra o crime”, nas palavras do presidente Maduro. Entretanto, segundo o Ministério Público Venezuelano, foram assassinados mais de 6.856 civis no período de janeiro de 2018 a maio de 2019 por “resistência à autoridade” — eram cerca de 13 mortos por dia.
Julio finalmente se aproxima da roda: puxa um banco, senta-se ao lado da esposa e observa a conversa por alguns segundos. Depois de se familiarizar com o assunto, entra no diálogo e relembra como a situação do país já foi diferente um dia.
Na primeira metade do século XX, a Venezuela já estava entre os principais produtores de petróleo do mundo. Na segunda parte, quando o regime militar de Marcos Pérez Jiménez caiu, o país viveu as três melhores décadas de sua história em termos econômicos.
Em 1990, quando Julio tinha 20 anos, ele encontrou 15 mil cruzeiros e, por três dias, achou que tinha uma bolada em mãos. “Fiquei pensando: ‘onde vou trocar esse dinheiro? Preciso de alguém de confiança que não vá me roubar’”. A realidade bateu à porta quando ele descobriu que aquela quantia valia somente 16 bolívares.
Na época, a economia brasileira enfrentava, pela primeira vez, uma hiperinflação. Em 1989, a inflação acumulada do país foi de 1.764,83%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No mesmo período, o índice na Venezuela atingiu os 84,46%. “Aqueles 15 mil cruzeiros não eram nada, dava para comprar 4 refrigerantes”, lamenta Julio. Hoje, esse valor é equivalente a 5,45 reais.
Dez anos depois, quando morava em Santa Elena de Uairén, o feirante presenciou o comércio ilegal de gasolina entre venezuelanos e brasileiros. A cidade fica a 15 quilômetros da fronteira com Pacaraima, em Roraima. “Santa Elena fez dinheiro vendendo gasolina para Pacaraima”, relembra Júlio.
Os brasileiros atravessavam a fronteira para comprar gasolina na Venezuela. Julio lembra que o fluxo era tanto que a polícia federal enchia pátios com carros de brasileiros que contrabandeavam o combustível do país. “A gasolina lá era quase de graça”, diz.
Até hoje, a Venezuela segue vendendo o combustível mais barato do mundo, resultado de uma política de subsídios governamentais. Nesse sistema, o Estado compensa a diferença entre o valor fixo de referência da cotação dos combustíveis e o preço internacional do petróleo.
O casal lembra que, naquele tempo, eram os brasileiros quem aprendiam a falar espanhol para fazer negócio na fronteira entre os países. “Agora, chegou a nossa vez”, brinca Suleidys.
Em terras brasileiras
Julio e Suleidys não imaginavam que a crise os levaria a solo brasileiro. O casal pingou de cidade em cidade, em busca de estabilidade ainda na Venezuela. “Moramos em Cumaná, Caripe e Casanay, até que chegamos em El Tigre. A cidade era petroleira, então havia chance de progredir”, diz a feirante.
As tentativas do governo em conter a inflação falharam, levando estabelecimentos à falência. Foi quando ambos perceberam que nem os trabalhos extras estavam dando conta da situação. Mas a filha de 16 anos que sofre de epilepsia foi o principal motivo que os trouxe ao Brasil. “Precisei fazer uma escolha: ou vínhamos para cá, ou a minha filha morria”, conta a mãe. O tratamento da doença precisa de medicamentos especializados, que eram importados do Brasil.
Suleydis, Julio e seus dois filhos partiram para uma viagem sem destino final ou data de retorno. A primeira cidade que moraram em solo brasileiro foi Manaus, no estado do Amazonas, em 2018. O casal recorda com carinho os momentos que passaram por lá durante sete meses e elogia a hospitalidade com que foram recebidos. “Lá, as pessoas te conhecem e vão te visitar, conversar com você. São muito receptivos e ainda hoje ligam nos perguntando quando vamos voltar”, conta Suleydis.
Já a segunda parada foi no ano de 2020, em Mineiros do Tietê, cidade que fica no estado de São Paulo. Por lá, também foram bem recepcionados e os negócios deram certo enquanto a maioria dos residentes não deixava a cidade durante o isolamento social. Entretanto, a partir do momento em que as medidas de flexibilização entraram em vigor e os trabalhadores voltaram à rotina, a demanda diminuiu e as vendas perderam força. E então, era hora de procurar por uma nova casa.
Foi no mesmo ano que vieram com a filha para Bauru. Quando chegaram na cidade, não foi fácil conquistar a freguesia. “Eu comecei a entregar panfletos e as pessoas deixavam na minha mão. E nossa, eu chorava, [...] as pessoas nem querem saber o que você tem para oferecer”, lamenta a feirante ao recordar as primeiras experiências enquanto divulgava as comidas na rua.
Já em 2022, entraram para as feiras da cidade e, desde então, é por meio delas que tiram seu sustento e se ocupam de domingo a sexta. A lista é longa: Bela Vista aos domingos, Praça do Avião às segundas-feiras, Camélias às terças, Vitória Régia às quartas, Rua Fuas às quintas, e Flamboyant às sextas. E quem dera se a barreira linguística fosse o único desafio para os feirantes.
Eles precisam agradar o paladar de pessoas que nunca sequer ouviram falar da comida venezuelana. “Até agora, as feiras estão funcionando. É difícil, mas estamos conquistando a freguesia”, desabafa Julio.
Para os brasileiros, Suleidys explica todos os doces e salgados em exposição: “temos folheado com castanha, amêndoas, amendoim, uva passa e caramelo, um doce muito tradicional na Venezuela. Temos também empanadas, e aqui ficam os recheios para fazer as arepas”. Já os fregueses que vieram de países vizinhos e moram na cidade têm maior afinidade com os pratos. Encostam na barraca, fazem o pedido, trocam algumas palavras em espanhol com a vendedora e vão embora. Sem necessidade de explicação.
O número de imigrantes no município aumentou oito vezes no ano passado, segundo a ONG Apoio para Recomeçar, que compila dados da Polícia Federal. Em agosto de 2021, 332 estrangeiros viviam de forma legal em Bauru e, doze meses depois, foram registradas 2.637 pessoas de outros países na cidade.
O casal se anima ao falar sobre os peruanos, equatorianos, chilenos, mexicanos e colombianos que encontram, principalmente, na região do Vitória Régia. “Isso aqui, perto das 18h, vira uma festa latina”, alegra-se Julio. E é essa diversidade que sustenta o sonho do confeiteiro: montar um restaurante, com músicas e pratos típicos venezuelanos.
Por Nathália Mendes, Gabriel Saez e Giovana Leal. Originalmente produzido para a Revista CENA.